Cerveja de cogumelo, tomate e mais: brasileiros surpreendem com receitas inusitadas em competição

O crescimento do mercado artesanal de cerveja no Brasil abriu espaço para experiências criativas e, por que não, ousadas dos mestres-cervejeiros. A bebida antes produzida apenas com ingredientes tradicionais, como água, malte e lúpulo, ganhou combinações que buscam ampliar aromas, sabores e possibilidades dentro do copo.

E a aposta na criatividade tem dado resultado. Além de atrair novos consumidores, essas cervejas vêm se destacando em concursos nacionais e internacionais ao mostrar que inovação pode ser sinônimo de qualidade.

Na edição deste ano da Copa Cerveja Brasil, organizada pela Associação Brasileira de Cerveja Artesanal (Abracerva), por exemplo, o rótulo “Best of Show” foi a Frutopia Amburana, da Cervejaria Yellow Bird Brewery, de Pinhais (PR), em colaboração com a Hespanha Brewery, de Paranaguá (PR).

A composição da cerveja campeã reúne quatro frutas – amora, morango, tangerina e limão – e utiliza chips de amburana, árvore nativa do Nordeste, no processo de maturação. Ainda no pódio, a medalha de prata ficou com a Louvada Coffee Pilsen, da Cervejaria Louvada, de Cuiabá (MT), produzida com café catuaí vermelho.

Em cinco etapas – uma em cada região brasileira –, os jurados puderam conhecer rótulos com ervas, especiarias, flores, frutas e muitas outras novidades. Para Juliana Behr, diretora de eventos da Abracerva, fortalecer a cultura e destacar a regionalidade estão entre os objetivos principais do Conexão Cerveja Brasil, projeto que inclui a Copa Cerveja Brasil.

“Ter cervejas com ingredientes como tomate e funghi nas receitas reafirma a criatividade das cervejarias que vêm se aprimorando, fortalecendo sua identidade local e inovando com ousadia na escolha de insumos não convencionais. Faz parte do princípio de muitas cervejarias aguçar a curiosidade do consumidor para novos sabores e aromas fora do convencional”, destaca à Globo Rural.

Ingredientes utilizados em cervejas da Copa Brasil 2025

  • Cogumelo: Funghi
  • Ervas: Alecrim, coentro, jambu e manjericão
  • Especiarias: Baunilha, canela, cravo e noz-moscada
  • Flores: Camomila e hibisco
  • Frutas: Amora, framboesa, graviola, laranja, maçã, manga, melancia, mirtilo, morango, pêssego, pitaya, tangerina e uva
  • Frutas brasileiras: Bacuri, cagaita, cajá, caju, cambuci, goiaba, jabuticaba, maracujá, pitanga e umbu
  • Frutos: Cacau, café, coco, damasco e tomate
  • Leguminosa: Amendoim
  • Madeira: Amburana, bálsamo, castanheira, ipê e putumuju
  • Tubérculo: Mandioca
  • Fonte: Abracerva

Feitiçaria Noturna

A cerveja criada em 2023 pela Cervejaria Turatti, de Fortaleza, combina dois ingredientes que, em um primeiro momento, parecem improváveis no universo cervejeiro: funghi e cumaru, conhecido como baunilha da Amazônia.

O rótulo acumula premiações, incluindo duas medalhas no Brussels Beer Challenge, um dos concursos mais prestigiados do mundo. Além do ouro na categoria Field Beer, levou o título de melhor cerveja brasileira de 2024.

Marcos Guerra, gerente e mestre-cervejeiro da marca, conta que a inspiração veio da vontade de ir além do convencional.

“Quando cheguei aqui, começamos a trabalhar com rótulos e ingredientes diferentes. E eu já havia feito alguma coisa próxima com essas matérias-primas. Decidimos inovar adicionando funghi e cumaru na cerveja. O funghi traz a ideia do envelhecido e do terroso, enquanto o cumaru tem o dulçor. E, então, acontece o equilíbrio”, explica Guerra.

O processo de produção também chama atenção. Isso porque, o funghi é adicionado ao tanque de inox e permanece em maturação por mais de 12 meses. O cumaru, por sua vez, entra na etapa final, quando a cerveja passa por um blend com uma leva mais jovem.

Além da Feitiçaria Noturna, a Turatti segue explorando ingredientes pouco usuais. A marca, que já lançou rótulos com coco, coco queimado, baunilha e graviola, tem mais de 120 prêmios e prepara uma receita que traz o caju como protagonista.

Sour Umbu e Cajá

Com baixo teor alcoólico (4,5%) e alta refrescância, a cerveja criada em 2024 pela Cervejaria Cybeer, de São Paulo, é a cara do verão.

O rótulo aposta na combinação de duas frutas brasileiras, o umbu e o cajá, para entregar aroma, leveza e muita brasilidade na lata de 473 ml.

“Sempre buscamos inovar e utilizar insumos nacionais para criar uma identidade local e uma sensação de pertencimento nas pessoas. O umbu, fruta típica do Nordeste, é extremamente fresco e aromático. Já o cajá, comum na região Norte, reforça o toque cítrico e azedinho da cerveja”, conta a sommelière e cervejeira Karine Lins.

Segundo a especialista, a Sour Umbu e Cajá, premiada duas vezes na Copa Cerveja Brasil, faz parte do movimento de inovação que vem impulsionando o futuro da escola cervejeira nacional.

A Cybeer, inclusive, trabalha em novos lançamentos seguindo a mesma linha: uma cerveja de jabuticaba com matcha e outra com leveduras selvagens da Amazônia.

Gose Alecrim e Tomate

Em Brasília, a Cruls Cervejaria desenvolveu não apenas uma cerveja com ingredientes inusitados, mas uma série de rótulos experimentais. O primeiro foi a Berliner Weisse Café, que traz o grão marcado no aroma e no sabor.

Na sequência, a busca por uma bebida de estilo alemão inspirou a marca a testar a combinação de alecrim e tomate, uma mistura improvável para muitos, mas que deu certo.

O resultado agradou tanto que clientes comparam a cerveja a uma pizza pela presença do fruto, conta Pedro Henrique Capozzi Miranda, sócio e CEO da Cruls.

“Por ter uma característica de produção com água salobra, a gose acaba ficando um pouco salgada, então colocamos no filtro uma pedra de sal do himalaia e alecrim. Isso ficou muito bom e com frescor. Ao chegar na indústria, mudamos um pouco a forma de produção e continuamos melhorando essa cerveja. A ideia do tomate surgiu para que o dulçor dele quebrasse a acidez da cerveja e o alecrim para trazer um toque mais herbal”.

Depois da Gose Alecrim e Tomate, a cervejaria ainda lançou outros dois rótulos na mesma linha: a Catharina Sour Limão e Cúrcuma e a Catharina Sour Frutas Vermelhas.

“Tem duas formas de fazer. Ou é com o mercado pedindo, ou pela cabeça do cervejeiro misturando ingredientes inusitados e diferentes. No passado, fizemos cerveja com castanha-de-baru, pé de moleque, salada de fruta, manga e até abóbora. Teve todo esse lado inventivo de estar mostrando para o público coisas novas”, finaliza Miranda.

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