ESG da porteira para dentro: como o campo pode colher valor com práticas sustentáveis

Já bastante incorporado em diferentes segmentos econômicos, o conceito de ESG – do inglês Environmental (Ambiental), Social (Social) e Governance (Governança) – vai além das questões legais de cumprimento obrigatório e vem ganhando relevância nos elos iniciais de inúmeras cadeias produtivas: os produtores rurais. Tradicionalmente, as exigências de mercado, investidores e da sociedade recaem sobre grandes produtores ou empresas exportadoras.

No entanto, a implementação de práticas ESG pode favorecer outros perfis de empreendimentos, independentemente do tamanho da fazenda e do tipo de atividade produtiva desempenhada. Por exemplo, uma pequena propriedade familiar de cultivo de cacau no sul da Bahia que adote práticas de sistema agroflorestal e participe de uma cooperativa promove renda diversificada e se qualifica para o acesso a melhores condições de negociação dos seus produtos.

O olhar da porteira para dentro permite enxergar o que cada produtor pode fazer na prática em seu dia a dia, para fortalecer a gestão e o valor do negócio, ao mesmo tempo que contribui com a sociedade, com o meio ambiente e com as crescentes exigências de mercados.

Ao olhar para os benefícios ambientais de práticas ESG, precisamos considerar os impactos da produção agropecuária na qualidade do solo, da água e da biodiversidade. No Brasil, estima-se que cerca de 28 milhões de hectares de pastagens apresentem algum grau de degradação do solo, resultado de erosão, compactação e manejo inadequado.

 — Foto: Globo Rural
— Foto: Globo Rural

A agropecuária também responde por aproximadamente 28% das emissões nacionais de gases de efeito estufa (GEE), associadas principalmente à fermentação entérica do rebanho bovino e às mudanças no uso da terra, de acordo com dados do SEEG, do Observatório do Clima.

Em relação ao uso de água, o setor é responsável por cerca de 50% do volume total de água captado, sendo em termos absolutos, o maior consumidor de água no país, o que amplia a pressão sobre a disponibilidade de recursos em regiões mais vulneráveis. Esses dados evidenciam a importância de incorporar critérios ESG que enfrentem de forma direta os desafios de uma produção mais responsável pelo setor.

Cuidar do ambiente é preservar a base do agronegócio. Algumas práticas ambientais possíveis em qualquer propriedade envolvem a conservação do solo, o uso racional da água, a proteção e conservação dos ecossistemas, a gestão de resíduos, a eficiência energética, o controle de emissões e remoções de GEE. São ações que envolvem desde rotação de culturas e plantio direto até regulagem da eficiência de máquinas e uso de painéis solares, além da recuperação e manutenção de cobertura vegetal e integração lavoura-pecuária-floresta.

Já no âmbito social, apesar dos avanços, os desafios ainda são significativos. Existe uma limitação no acesso à educação e à capacitação profissional, além de dificuldades no acesso à saúde e a serviços básicos, principalmente em regiões isoladas.

No aspecto profissional, há alta rotatividade de mão de obra, muitas vezes em condições inadequadas de alojamento, e a persistência de desigualdades de gênero e geracional, que afastam mulheres e jovens da gestão e sucessão das propriedades. Em diversas localidades, a falta de infraestrutura básica impacta diretamente a qualidade de vida das famílias. Somam-se a isso os riscos de acidentes de trabalho e intoxicação por defensivos, que ainda são recorrentes.

Esses fatores reforçam a relevância do pilar social do ESG como ferramenta de transformação da realidade no campo, que envolve qualidade de vida, diversidade e inclusão, igualdade de gênero e relações com as comunidades, garantindo que as fazendas sejam locais que ofereçam condições justas, seguras e dignas de trabalho. Outro ponto importante é a inclusão social, com a contratação de jovens em situação de vulnerabilidade, o apoio a projetos educativos ou a oferta de benefícios para as famílias, como o financiamento de um curso de formação de jovens tratoristas na região.

A governança é o eixo que garante organização, transparência, ética e perenidade à atividade agrícola. Esse ponto é fundamental para garantir à propriedade gestão financeira estruturada, planejamento estratégico da produção, a conformidade legal, além de transparência nas relações comerciais, com um mecanismo de queixas implantado e uma comunicação honesta com parceiros.

As mudanças precisam ser gradativas, acompanhadas de aprendizado, observação e resiliência, mas independem do tamanho da fazenda e quanto antes começam a ser implementadas, mais cedo é observado o retorno. Muitos produtores deixam de investir em ferramentas de gestão, o que é essencial para organizar políticas, planos, metas e cronogramas, além de definir responsabilidades claras.

Além disso, estabelecer indicadores que permitam monitorar resultados e fazer ajustes contínuos garantem que as práticas ESG realmente avancem e tragam impacto positivo na produção e no mercado.

A adoção de práticas ESG da porteira para dentro traz ganhos imediatos e de longo prazo, como redução de custos com eficiência de recursos, sucessão de pessoas, abertura de mercados que valorizam produtos sustentáveis, fortalecimento da imagem do produtor e melhoria no relacionamento com parceiros, sejam compradores, cooperativas, instituições financeiras ou outros. Ao adotar uma gestão mais consciente, o produtor não apenas protege seu negócio e aumenta sua competitividade, como também contribui para um futuro mais sustentável para o Brasil e para o planeta.

*Eduardo Trevisan é diretor de ESG e Certificações do Imaflora e Alessandro Rodrigues é gerente de Agro ESG

As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural

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