Novas moléculas e o futuro do agro

Existe um princípio muito forte em comum entre os elos da cadeia do agronegócio – produtividade e sustentabilidade devem andar juntas. Algo que também é sabido por todos é que as pragas, de forma geral, não dão trégua e nos deixam em alerta máximo safra após safra.

A Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) aponta que até 40% da produção agrícola é perdida no mundo devido a esses fatores bióticos, o que reforça a importância da pesquisa, inovação e do desenvolvimento de ingredientes ativos químicos modernos, seguros e eficazes para apoiar o produtor.

A intensidade desses problemas está diretamente ligada a fatores como clima, condições do solo, disponibilidade de insumos para nutrição e defesa das plantas — além do surgimento de resistência aos defensivos já disponíveis no mercado. Assim, superar as perdas causadas por pragas e doenças exige pesquisa, desenvolvimento e inovação constantes.

São muitos os aspectos que merecem atenção, mas neste artigo quero destacar um em especial: o papel da inovação nos defensivos químicos para garantir a produtividade agrícola e a segurança dos alimentos.

Os defensivos químicos transformaram a agricultura ao longo do século XX, possibilitando ganhos de produtividade e segurança alimentar. As moléculas mais antigas — como os organoclorados e organofosforados — tiveram um papel central nesse processo.

São produtos eficazes e, até hoje, alguns ainda fazem parte do manejo agrícola. Mas, por apresentarem características mais generalistas, maior persistência e concentrações elevadas, exigem instruções claras de uso e cuidados rigorosos no manuseio, justamente para evitar erros que possam trazer consequências ambientais ou de saúde.

 — Foto: Globo Rural
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Com o tempo, o uso intensivo dessas moléculas trouxe novos desafios: casos de resistência em pragas e doenças, ressurgência de espécies secundárias e a necessidade de aplicações mais frequentes. A ciência percebeu a importância de diversificar ferramentas e investir em inovação.

Segundo Garud et al. (2024), essa trajetória impulsionou o desenvolvimento de novas gerações de moléculas químicas — mais específicas, menos persistentes no ambiente e com perfis toxicológicos mais favoráveis. Hoje, os avanços vão além da busca por eficácia: incluem melhoria em seletividade, formulações inteligentes e regulamentações rigorosas que colocam a segurança no centro das decisões.

Se no passado o controle químico esteve associado a moléculas de amplo espectro, hoje a pesquisa em química, biotecnologia e ciência dos materiais abre caminho para defensivos mais modernos, seguros e sustentáveis. São inovações que não substituem totalmente o legado das moléculas antigas, mas que ampliam o leque de soluções, oferecendo mais equilíbrio entre produtividade e preservação ambiental.

Um levantamento feito por Umetsu & Shirai (2020) mostra a dimensão do avanço recente na pesquisa de defensivos químicos no mundo: mais de 105 novos defensivos químicos foram lançados ou estão em desenvolvimento na última década, sendo 43 fungicidas, 34 inseticidas/acaricidas, 6 nematicidas, 22 herbicidas.

Essas moléculas são consideradas mais segura para o ser humano e ambientalmente mais amigável, o que reflete a mudança de paradigma no desenvolvimento de defensivos.

Esse movimento de inovação é guiado por três estratégias principais: buscar alta eficácia em baixas doses, garantir degradação mais rápida com baixo residual ambiental e investir em toxicidade seletiva para o alvo, ou seja, compostos compatíveis com inimigos naturais e integrados às práticas de MIP. Isso significa defensivos mais potentes contra pragas, mas menos agressivos para o ambiente e para organismos benéficos.

Outro aspecto essencial está na mensuração objetiva do impacto dos defensivos. Segundo Lazarević-Pašti et al. (2025), o Environmental Impact Quotient (EIQ) — índice que avalia efeitos sobre a saúde humana, organismos não alvo e o meio ambiente — apresenta quedas consistentes nas moléculas registradas nas últimas duas décadas.

Na prática, isso significa que o agricultor dispõe hoje de produtos mais seguros e responsáveis, que conciliam eficiência agronômica com menor impacto ambiental.

Esse avanço é crucial para que o produtor mantenha altos níveis de produtividade sem abrir mão da responsabilidade ambiental e da segurança alimentar.

Desenvolver um novo ingrediente ativo é um processo longo, caro e extremamente seletivo. Entre a descoberta de uma molécula promissora e sua chegada ao mercado, tem-se em média 12 anos de pesquisa e desenvolvimento e um investimento próximo de 300 milhões de dólares.

O funil de inovação é rigoroso: de milhares de moléculas sintetizadas e testadas em laboratório, apenas uma em cada 140 mil avança até a comercialização. Isso porque cada candidato precisa ser submetido a um conjunto extenso de avaliações — eficácia agronômica, seletividade ao organismo-alvo, segurança toxicológica, impacto ambiental e viabilidade econômica.

Esse processo explica por que as inovações químicas não aparecem todos os dias. Mas quando chegam ao campo, representam saltos importantes para o produtor. Novas moléculas significam novos alvos de ação, menor risco de resistência cruzada e maior segurança para integrar programas de Manejo Integrado de Pragas (MIP).

No MIP, os defensivos químicos nunca saíram de cena — mas evoluíram. Eles deixam de ser vistos como solução única para se tornarem ferramentas seletivas e integradas, capazes de atuar em sinergia com bioinsumos, práticas culturais e tecnologias digitais.

Os novos ingredientes ativos representam mais do que inovação tecnológica: são uma resposta direta às demandas atuais de produtividade, segurança e sustentabilidade. Eles reforçam que a agricultura do futuro precisa de mais ciência e mais inovação. É como eu sempre digo: não existe milagre, existe manejo.

*Gabriela Vieira é especialista em Manejo Integrado de Pragas (MIP) e produtos biológicos

As ideias e opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade exclusiva de sua autora e não representam, necessariamente, o posicionamento editorial da Globo Rural

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