O clima ajudou, e os produtores de uvas da Serra Gaúcha, principal região vitivinicultora do Brasil, esperam uma safra volumosa e de boa qualidade da fruta neste verão. A colheita de algumas poucas variedades precoces, para consumo in natura, já começou, mas a maior expectativa é para a vindima das uvas viníferas, que deve se iniciar na metade de janeiro.
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Segundo o Instituto de Gestão, Planejamento e Desenvolvimento da Vitivinicultura do Estado do Rio Grande do Sul (Consevitis-RS), espera-se que colheita da uva da safra 2025/26 atinja 800 milhões de quilos, um aumento em torno de 50 milhões de quilos na colheita em relação à estimativa da temporada 2024/25 (750 milhões de quilos).
O motivo para esse aumento foi a ocorrência de um inverno rigoroso, com mais 390 horas de frio abaixo ou igual a 7,2ºC, condição que beneficia o potencial de brotação da videira.
No entanto, a Emater-RS, empresa pública de extensão rural e assistência técnica do Rio Grande do Sul, é mais cautelosa em relação às previsões para a colheita. “Tivemos um período recente de déficit hídrico, provocado pelo fenômeno La Niña, justamente no momento de enchimento das bagas da uva. Alguns parreirais devem sofrer murchamento, levando a uma redução no volume de colheita”, afirma Thompson Didoné, enólogo e extensionista rural da Emater-RS.
Se o volume final de colheita é uma incógnita, a expectativa ainda é de alta qualidade das frutas, que devem gerar uma excelente safra de vinhos em 2026. “Não temos problemas de ataque de doenças, pragas, que cheguem a comprometer a safra. E um déficit hídrico quando o cacho está maduro ajuda a uva ficar mais doce e vinífera”, destaca Didoné.
Segundo a Emater-RS, dos 45 mil hectares plantados com videiras no Rio Grande do Sul, 42 mil são ocupados por uvas destinadas à indústria e 3 mil para consumo in natura. “Da quantidade industrializada, 80% vai para fabricação de sucos e vinhos de mesa, e o restante para vinhos finos e espumantes”, explica o enólogo.
A esperança de uma uva com maior grau de açúcar anima a indústria vinícola, pois isso garante uma bebida de melhor qualidade. “A safra 2025 já foi boa nesse sentido, e tudo indica que teremos mais uma safra de vinhos excelente”, destaca Luciano Rebellato, presidente do Consevitis.
O dirigente acredita que o setor irá se organizar para elaborar maior quantidade de vinhos, especialmente os mais leves, brancos e jovens, os quais se mostram como uma tendência para os novos consumidores.
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Expectativa otimista
Na vinícola Casa Zottis, em Bento Gonçalves, as expectativas para esta safra são otimistas. “A qualidade e a sanidade da uva está excelente até o momento. Tudo está se desenhando para termos um vinho que os compradores vão querer guardar para momentos especiais”, afirma Juliano Zottis, vititucultor e proprietário da vinícola.
Com 2,5 hectares de parreirais próprios e mais quatro arrendados, Zottis colheu cerca de 80 toneladas de uvas na última safra. Em 2026, ele espera produzir até 15% a mais. Do volume colhido, a sua vinícola utiliza apenas 30%, fabricando em torno de 15 mil litros de vinho por ano. Os 70% restantes são vendidos para outras indústrias. Entre as variedades produzidas pela Casa Zottis estão Cabernet, Merlot, Alicante Bouschet, Sangiovese, Pinot Noir, Chardonnay e Moscato de Hamburgo.
Na agroindústria Videiras Carraro, também em Bento Gonçalves, foram colhidas 85 toneladas de uva em 2025. Para a nova safra, a expectativa é que sejam produzidas 100 toneladas, afirma o produtor Jean Carraro. Entre as variedades plantadas, estão Merlot, Malbec, Chardonnay, Pinot e Cabernet Franc.
“Também foi um ano que tivemos menos doenças nas parreiras, por causa do frio mais rigoroso no inverno. Foi mais fácil trabalhar”, comenta Carraro.
O produtor espera começar a colheita na segunda quinzena de janeiro. Já a produção de vinho deve ser mantida na mesmo volume de 2025, em torno de 12 mil litros.
Preço gera apreensão
Um fator que preocupa os produtores é o preço esperado pela uva. Em dezembro, o Conselho Monetário Nacional (CMN), seguindo uma proposta da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), fixou, a partir de 1º de janeiro de 2026, o preço mínimo da uva industrial em R$ 1,80 o quilo, um reajuste de 6,5% sobre o valor praticado em 2025.
Segundo Cedenir Postal, presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves, o preço estabelecido pela Conab fica próximo dos R$ 1,82 por quilo necessários para cobrir os custos de produção. O valor foi calculado pela Comissão Interestadual da Uva (CIU), que reúne produtores do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
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“O ideal seria que fosse além disso, mas diante das circunstâncias, ficou de bom tamanho esse acordo. Agora, o que a gente espera é que todas as empresas cumpram pelo menos o preço mínimo”, afirma Postal.
O produtor Jean Carraro espera que, para suas uvas, sejam oferecidos, pelo menos, os mesmos valores de 2025, que ficaram entre R$ 2,20 e R$ 2,30 o quilo para as variedades comuns e de R$ 6 para as viníferas. “Dessa forma, cobriria o custo de produção”, afirma.
Juliano Zottis está mais cauteloso. “No momento que se inicia a colheita, também começa a lei da oferta e procura. Se ficar em R$ 1,80 o preço mínimo, é um valor bom, mas os custos vem aumentando, especialmente com defensivos, combustível e manutenção de máquinas”, destaca o produtor.

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