Como uma fazenda no RS virou "modelo" de pecuária sustentável para a Minerva

Todos os dias, às 6 da manhã, os funcionários da Fazenda Pulquéria se reúnem para uma roda de conversa que vai muito além do chimarrão. Ali, cada detalhe dos trabalhos de campo é compartilhado com a família dona da propriedade, formada por três gestores, para antecipar qualquer problema.

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Do lado de fora, o rebanho bovino caminha solto no pasto entre cochos com suplementação alimentar, que garante a engorda intensiva e um abate antecipado — e, consequentemente, com menos emissões de metano.

Com essa e outras práticas voltadas à gestão, à sustentabilidade e ao bem-estar animal, a Fazenda Pulquéria, propriedade de 1,8 mil hectares localizada em São Sepé (RS), com 11,4 mil cabeças de gado, foi a primeira fornecedora da Minerva no Rio Grande do Sul a receber a certificação do Programa Renove, criado pelo frigorífico para fomentar a pecuária de baixo carbono.

A certificação, entregue no fim de novembro, assegura que a fazenda emite 20% menos metano que a média nacional. A média de emissões da pecuária de corte no Brasil é de 1,3 tonelada de carbono equivalente por animal ao ano.

O número é influenciado principalmente pelas emissões de metano oriundas da fermentação entérica e do manejo de dejetos. Esse valor é referência nacional utilizada no Carbon Neutral and Low Carbon Standard (CNLCS), métrica da certificadora FoodChain ID utilizada pelo Programa Renove.

Marta Giannichi, diretora global de sustentabilidade da Minerva, destaca que, além do baixo índice de emissões, o critério principal para participação no Renove é não ter nenhum tipo de desmatamento nos últimos dez anos. “Nosso objetivo é fomentar a pecuária de baixo carbono e identificar como podemos dar esse suporte aos nossos fornecedores”, afirma.

Atualmente, o programa tem 145 propriedades participantes, sendo 31 no Brasil, 108 no Uruguai e seis no Paraguai. Em 2026, o Renove também atuará com fornecedores da Minerva na Argentina. A empresa é a maior exportadora de carne bovina da América do Sul.

A certificação de uma fazenda não é garantia de bônus, mas as técnicas que lhe permitem ter menos emissões ajudam os pecuaristas a obter mais rendimentos. Segundo a Minerva, o peso médio de abate das fazendas participantes do Renove é 12,5% superior ao dos demais animais recebidos pelo frigorífico, e a idade média de abate pode ser de dois a seis meses menor.

Para a Minerva, a Fazenda Pulquéria é um “modelo” no programa, mas Fernando Costabeber, dono e um dos gestores da propriedade, evita o rótulo. “Essa nossa estratégia foi construída aos pouquinhos. A fazenda foi comprada pelos meus pais há 50 anos, quando eu era estudante de veterinária. Depois disso, fui para fora do país e encontrei referências que poderiam ser aplicadas na fazenda. Foi tentativa e erro”, conta. A fazenda vende em torno de 80% de seu gado para a Minerva.

Uma das referências trazidas do mercado externo foi o comedouro de alto consumo, que o produtor conheceu em uma viagem à Austrália. Um dos maiores gargalos da pecuária gaúcha é a alimentação, pois são comuns períodos de seca no verão, que afetam a qualidade das pastagens. Os comedouros para alimentação intensiva vieram para solucionar esse problema, mas com o gado livre nos pastos, ao invés de confinado.

Inicialmente, a fazenda produzia o ciclo completo do boi, com cria, recria e engorda. Entretanto, com o passar dos anos, a propriedade focou integralmente na engorda. “Todo o nosso esforço, hoje, é para produzir bovinos machos, com terminação intensiva a pasto”, ressalta.

Além desse sistema de engorda que deixa o animal menos estressado, a fazenda evita práticas que afetam o bem-estar dos animais, segundo Costabeber. Os bois não são marcados à ferro para identificação, não vão para pesagem com frequência, e os que são castrados (cerca de 40%) só passam pelo procedimento com anestesia.

A rastreabilidade é feita com brincos do Sistema de Identificação Individual de Bovinos e Búfalos (Sisbov), mas Fernanda Costabeber, filha de Fernando e uma das gestoras da fazenda, diz que tenta minimizar o risco de compra de gado vindo de fornecedores com alguma irregularidade.

“Temos mais de 500 fornecedores e a gente tenta evitar fragilidades. O preço de compra do animal pode estar bom, para um gado de qualidade, mas se o fornecedor já esteve envolvido com alguma polêmica na parte social ou ambiental, nós não compramos dele”, afirma a pecuarista.

“Essa propriedade entrega boi [com rendimento] 25% acima do mercado, comparado ao gado produzido de forma convencional. Eles têm um preço base muito acima e atendem a todas as premiações oferecidas pela Minerva”, ressalta Taulni Francisco Santos da Rosa, gerente executivo regional de compra de gado Sul da Minerva.

145: É o número de fazendas que integram o programa Renove

A companhia oferece quatro tipos de prêmios nos contratos com pecuaristas: prêmio de parceria, obtido com a garantia de entrega do animal contratado; prêmio por rastreabilidade; prêmio por idade (que favorece os mais jovens) e de acabamento do animal. “Tudo isso contribui para a formação de preço”, enfatiza.

“A [Fazenda] Pulquéria é a propriedade que atende a todos os padrões que precisamos hoje na Minerva, está dentro de todos os protocolos criados para o Rio Grande do Sul”, diz Rosa.

Os 40% de animais da fazenda que são castrados são direcionados para a produção de carne premium. Beneficiada pelo clima ameno do Pampa, a fazenda trabalha somente com raças de cruzamentos britânicos em geral, de alto valor agregado, como Angus e Hereford. “Nosso grande desafio é produzir com mais qualidade e menor custo. Assim, nós criamos um nome no mercado de carne de qualidade”, completa Fernanda.

A Minerva começou a atuar no mercado gaúcho há cerca de um ano, quando passou a operar as unidades de São Gabriel (RS), Bagé (RS) e Alegrete (RS) que foram adquiridas da Marfrig, em um negócio de R$ 7,5 bilhões que envolvia outras plantas no Brasil e América do Sul. Após assumir a operação, a companhia direcionou as unidades para produção de carne de alto valor agregado.

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