O governo argentino segue cumprindo seus compromissos com credores internacionais, mas o preço desse esforço aparece cada vez mais nítido dentro de casa.
Nesta semana, as reservas internacionais do Banco Central da Argentina recuaram mais de 800 milhões de dólares após o pagamento de capital e juros aos detentores de títulos internacionais. A saída de recursos foi parcialmente compensada pela entrada de dólares obtidos por meio de empréstimos garantidos por organismos multilaterais.
Ao todo, foram desembolsados cerca de 2,5 bilhões de dólares em bônus internacionais, enquanto aproximadamente 2 bilhões de dólares ingressaram por meio de operações com bancos internacionais garantidas pelo Banco Mundial. Com isso, as reservas do BCRA encerraram o dia em 48,7 bilhões de dólares, depois de terem atingido na véspera o maior nível desde setembro de 2019.
O esforço faz parte de uma estratégia mais abrangente do ministro da Economia, Luís Caputo, que, segundo reportagem do Financial Times, pagou 4,3 bilhões de dólares em bônus para provar que o país consegue honrar sua dívida sem recorrer aos mercados internacionais de capital.
Desde a reestruturação de 2020, a Argentina não emite títulos internacionais de sua dívida sob legislação estrangeira, optando por empréstimos multilaterais, bancos privados e títulos em lei local.
O prêmio de risco exigido por investidores caiu de mais de 25 pontos percentuais em 2023 para 4 pontos hoje, mas analistas alertam que a janela para voltar aos mercados pode se fechar à medida que as eleições de 2027 se aproximam.
Nesse cenário, o ajuste fiscal recai sobre as províncias. Em junho, as transferências não automáticas do governo nacional a províncias e à Capital caíram cerca de 88% em termos reais na comparação anual, somando apenas 48,3 bilhões de pesos, o pior junho desde pelo menos 2005.
No primeiro semestre, esses repasses somaram 639,6 bilhões de pesos, queda real de 61,8% ante igual período de 2025, o segundo pior resultado da série histórica.
Segundo relatos publicados pelo La Nación, parte do mercado financeiro passou a avaliar que a saída do ex-chefe de gabinete Manuel Adorni reduziu um foco de desgaste político para o governo, reacendendo o interesse de investidores estrangeiros nos ativos argentinos, coincidindo com a leve depreciação do peso.
A Casa Rosada tenta aproveitar esse ambiente mais favorável para recuperar a iniciativa política. A aposta é transformar a melhora na percepção dos mercados em apoio para aprovar um novo pacote de desregulamentação e fortalecer as negociações com governadores, reduzindo resistências antes do ciclo eleitoral de 2027.
O equilíbrio entre reservas, dívida e apoio provincial seguirá no centro do teste que Milei enfrenta antes de tentar a reeleição. Analistas apontam brechas no plano de Caputo, incluindo bilhões de dólares em fontes de financiamento ainda não definidas.
Com as eleições de 2027 se aproximando…
Siga a leitura em Crusoé. Assine e apoie o jornalismo independente.

Deixe um comentário