Com o fim do vazio sanitário da soja previsto para o próximo domingo (6), em Mato Grosso, produtores rurais já estão com as áreas preparadas para dar início à safra 2026/27. Durante o período em que a cultura não pode permanecer no campo, o trabalho nas propriedades continuou. Esse foi o momento que o agricultor aproveitou para realizar o manejo de solo, a plantação de cobertura, a correção da fertilidade e organização das operações para o próximo plantio.
Para a Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato), o período que antecede o plantio é estratégico para o produtor rural, que precisa aproveitar o intervalo entre as safras para organizar as atividades, planejar os custos e adotar medidas que contribuam para o bom desempenho da produção. O planejamento antecipado também permite que o produtor esteja preparado para iniciar o plantio dentro da janela recomendada, respeitando as normas fitossanitárias.
Em Nova Xavantina, o produtor rural Endrigo Dalcin conta que esse período foi aproveitado para deixar as áreas prontas para a nova temporada. “A gente faz o planejamento, faz a aplicação, manejo das restevas, usa o rolo-faca, joga calcário, joga gesso, os tratos culturais pré-plantio. Faz as análises de solo, vê se precisa de correção. É uma época de planejamento e de correr atrás de se organizar para a próxima safra”, explica.
O produtor explica que nas propriedades mato-grossensses que trabalham com mais de uma safra ao longo do ano, praticamente não existe um período de interrupção das atividades.
“Pode até estar descansando, mas alguma coisa na propriedade nunca para. A gente está sempre, quando não está planejando, fazendo uma aplicação de calcário, de gesso, jogando fertilizante em cima dessas palhadas, já preparando para a próxima safra”, afirma.
Além do preparo do solo, as áreas permanecem ocupadas por culturas de cobertura ou pela segunda safra, como milheto, braquiária, gergelim, crotalária e milho. Essas culturas ajudam a manter a cobertura do solo enquanto a soja não pode estar presente no campo.
“O produtor dificilmente deixa as áreas em pousio sem fazer nada. Alguma coisa sempre é feita: uma cobertura, um milheto, um gergelim, uma crotalária, o milho. Os produtores utilizam ao máximo o solo e mantêm ele com cobertura”, destaca Endrigo.

O manejo também exige atenção às chamadas plantas voluntárias de soja, conhecidas como soja tiguera ou guaxa. A eliminação dessas plantas é necessária durante o vazio sanitário para evitar que permaneçam no campo como hospedeiras da ferrugem-asiática.
O vazio sanitário da soja é uma medida de defesa sanitária vegetal que estabelece um período contínuo sem plantas vivas de soja. O objetivo é interromper a chamada “ponte verde” da ferrugem-asiática, doença causada pelo fungo Phakopsora pachyrhizi.
Como o fungo depende de tecido vegetal vivo para sobreviver e se multiplicar, a eliminação das plantas voluntárias reduz a presença do inóculo no ambiente e contribui para diminuir a pressão da doença no início da nova safra.
O assessor técnico de agricultura da Famato, Alex Rosa, explica que o período do vazio sanitário não deve ser confundido com uma pausa nas atividades da propriedade. “O vazio sanitário não significa que o solo precisa ficar parado ou sem produção. É uma medida de defesa sanitária vegetal”, explica.
Segundo ele, durante esses meses, os produtores aproveitam para realizar análises e correções de solo, aplicações de calcário e gesso, fertilização, manejo das palhadas, revisão de máquinas e outros preparativos para a semeadura.
O cuidado agora é com o clima
Com as áreas em preparação para a nova safra, a condição climática passa a ser um dos principais pontos de atenção dos produtores. Segundo o analista do Instituto Mato-grossensse de Economia Agropecuária (Imea), Henrique Eggers, as previsões para os primeiros dias de setembro indicam volumes reduzidos de chuva, situação que pode atrasar o início da semeadura em algumas regiões.
“O cenário não é tão positivo. A gente vê volumes bem pequenos de chuva, e isso pode, consequentemente, atrasar o início do plantio”, alerta.
Henrique explica que, após um período prolongado de estiagem, uma chuva isolada não necessariamente garante condições adequadas para a semeadura. Segundo ele, o solo está muito seco e pode perder rapidamente a água recebida, especialmente diante das altas temperaturas registradas no início do período chuvoso.
“O produtor sempre fala que não planta antes de ter pelo menos 100 milímetros de chuva e uma previsão de mais chuva para os próximos dias, visando não perder a semente após o plantio. Não adianta acumular 100 milímetros e depois não chover mais”, destaca.
Outro fator de preocupação são as temperaturas elevadas. De acordo com o analista, o excesso de calor pode comprometer não apenas a germinação, mas também as plantas que já emergiram. Em situações de pouca umidade e temperaturas muito altas, existe inclusive o risco de a semente ser danificada no solo.
“Realmente, esse ano, quando falamos em início de plantio, a palavra destaque seria cautela. É preciso ter uma condição ideal, com previsibilidade de que haverá mais chuvas nos próximos dias após a semeadura”, afirma Henrique.

Os dados meteorológicos para o início de setembro de 2026 em Mato Grosso apontam um cenário crítico de baixas precipitações e temperaturas extremas, impondo forte cautela aos produtores no encerramento do vazio sanitário. Segundo o Agritempo, entre os dias 5 e 8 de setembro, a maioria do território mato-grossense registrará chuvas escassas ou nulas (em sua maioria entre 0 e 5 mm), aliadas a temperaturas máximas que superam os 35 °C a 40 °C em grande parte do estado.
Além disso, a projeção acumulada de 15 dias permanece bem abaixo da média histórica, acumulando pouco menos de 20 mm no período. Esse ambiente de solo ressecado e calor intenso eleva o risco de escaldadura ou “cozimento” das sementes da soja.


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