Alcolumbre volta ao foco com 6×1 após derrota no Amapá e com futuro incerto

A votação do fim da escala 6×1 pode acabar sendo uma aposta do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para recuperar força após derrotas de seu grupo político no Amapá. O senador também enfrenta incertezas sobre sua permanência no comando da Casa em 2027.

Alcolumbre marcou para hoje a votação da proposta sobre a mudança na jornada de trabalho, após terem sido feitas as cinco sessões de discussão obrigatórias pelo regimento. Defendida pelo governo Lula (PT), a medida prevê reduzir gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas, sem corte salarial.

Com a maior bancada no Senado, após eleger 19 parlamentares no dia 4, o PL fica com força para definir um candidato à presidência do Senado e tem discutido nomes. A escolha acontece em fevereiro do ano que vem, quando começa a nova legislatura.

Se Flávio Bolsonaro (PL) vencer a disputa presidencial, o partido deveria abrir espaço para aliados, em vez de monopolizar a chefia de Câmara e Senado. Mas o comando do Senado é considerado fundamental por ser de responsabilidade dessa presidência possibilitar a leitura de eventuais pedidos de impeachment para ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

Crise ampliada desde 2020

As eleições representaram uma derrota para o grupo de Alcolumbre no Amapá. O governador Clécio Luís (União Brasil), apoiado pelo senador, perdeu a disputa pela reeleição.

A família Furlan saiu das urnas com duas vitórias: Dr. Furlan (PSD) foi eleito governador, e sua mulher, Rayssa Furlan (Podemos), conquistou uma vaga no Senado. Alcolumbre apoiava Alliny Serrão, do União Brasil, e Randolfe Rodrigues, do PT.

Dr. Furlan ganhou força na política local em 2020, ao derrotar Josiel Alcolumbre, irmão de Davi, na disputa pela Prefeitura de Macapá. A vitória ocorreu em meio à crise provocada pelo apagão no estado.

Desde então, Furlan ampliou sua popularidade com obras e uso das redes sociais. Ele venceu a disputa pelo governo no primeiro turno, com 62,75% dos votos válidos, contra apenas 36,97% de Clécio.

Alcolumbre não disputou a eleição, mas atuou pela reeleição do governador, participando de diversos atos públicos.

No Senado, as duas vagas também ficaram com aliados dos Furlan: Rayssa e Lucas Barreto (PSD), também rival do grupo político de Alcolumbre.

Após a derrota de seu grupo, Alcolumbre afirmou que respeitava o resultado das urnas. Em publicação nas redes sociais na noite de domingo (4), o presidente do Senado disse reconhecer a “decisão soberana da maioria do povo do Amapá” e afirmou que continuará trabalhando pelo estado. “Minha posição em defesa do Amapá permanece”, escreveu.

O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Davi Alcolumbre
O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Davi Alcolumbre Imagem: Sergio Lima / AFP

Impacto da derrota

A família Alcolumbre, de origem judaico-marroquina, tem forte poder econômico no Amapá há décadas. Chegou ao estado por volta de 1920 e construiu negócios no comércio, no setor imobiliário e na agricultura. Davi foi eleito senador em 2014 e ampliou sua influência ao assumir a presidência do Senado, em 2019.

A derrota enfraquece Alcolumbre no Amapá, mas não significa o fim de seu poder político, avalia a socióloga e cientista política Luana Barbosa.

Professora da Universidade Federal do Amapá (Unifap), ela pesquisa as relações entre famílias e poder político no estado. Luana lembra que aliados do senador conquistaram vagas na Câmara dos Deputados e na Assembleia Legislativa e que seu grupo ainda controla a maioria das prefeituras. “Mas houve um abalo em relação a essa estrutura de poder”, afirma.

Lucas Barreto, Rayssa Furlan e Dr. Furlan
Lucas Barreto, Rayssa Furlan e Dr. Furlan Imagem: Facebook

Dobradinha dos Furlan

Dr. Furlan construiu sua força política de maneira diferente da de Alcolumbre, segundo a pesquisadora. Enquanto o presidente do Senado consolidou uma rede de alianças institucionais, o ex-prefeito apostou na proximidade com a população e na divulgação de obras nas redes sociais. A estratégia ajudou a projetar sua imagem de “prefeitão”.

A popularidade de Furlan também ajudou a impulsionar a candidatura da mulher ao Senado, na avaliação de Luana. Médica dermatologista, Rayssa conquistou 30% dos votos válidos, enquanto Lucas Barreto recebeu 24%.

A professora destaca o uso de vídeos, selfies e registros do cotidiano familiar para aproximar Furlan dos eleitores. “Usou esse sentimento de pertencimento”, resume, ao comentar a estratégia de comunicação.

A eleição pode marcar o surgimento de uma nova força familiar na política amapaense, avalia Luana. “Ou seja, cria-se uma nova hegemonia”, afirma.

Rayssa integrou a administração do marido na Prefeitura de Macapá, onde ocupou a Secretaria de Mobilização e Participação Popular.

Outro integrante da família participou da chapa: Neto Furlan (Podemos), irmão de Dr. Furlan e primeiro suplente de Rayssa. Advogado e candidato pela primeira vez, ele declarou patrimônio de R$ 7,69 milhões, dos quais mais de R$ 5 milhões correspondem a participações em lotes agrícolas.

O desafio de Furlan será transformar sua popularidade em uma base política própria, segundo Luana. Apesar do apoio entre os eleitores, o governador eleito ainda precisa consolidar alianças partidárias e ampliar sua influência nas prefeituras e no Legislativo estadual. “Ele ainda tem essa fraqueza de base política, mas se vale da base social.”

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