Próximo governo está fadado a decepcionar na economia, diz Monica de Bolle

Qualquer que seja o próximo governo, haverá decepção na política econômica, avalia em entrevista ao UOL a economista Monica de Bolle, pesquisadora sênior do Instituto Peterson de Economia Internacional e professora da Universidade de Georgetown, em Washington.

Na avaliação dela, os dois candidatos falham em compreender mudanças recentes na sociedade brasileira: o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) ainda pensa a economia a partir de uma realidade que ficou para trás, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL) subestima o papel do Estado para responder às novas demandas da população.

O que ela disse

Próximo governo está fadado a decepcionar na economia. Tanto Luiz Inácio Lula da Silva quanto Flávio Bolsonaro tendem a decepcionar os eleitores no campo econômico no próximo mandato, disse a economista.

Do ponto de vista econômico, Lula está desconectado do presente, diz. “O Lula está falando para um passado em que o mercado de trabalho era outro e o sistema político brasileiro era outro”, disse.

Já Flávio Bolsonaro não acredita no papel do Estado, afirma a economista. Com isso, não será capaz de atender às demandas dessa população que não se sente atendida pelo governo atual encontra respostas aos seus anseios nos partidos tradicionais de centro, centro-esquerda ou centro-direita.

Essas pessoas vivem em condições precárias que só podem ser dirimidas por meio de educação, por meio de investimentos em serviços de um modo geral. Não vejo a corrente bolsonarista fazendo isso, porque é uma corrente que não acredita no papel do Estado. Então nenhuma candidatura responde a esses anseios.

Problema fiscal

Para Bolle, o Congresso eleito não permitirá que o governo faça a política fiscal que o Brasil precisa. A questão fiscal, ou seja, a dívida pública, será o principal desafio macroeconômico para o próximo governo. Mas não haverá espaço para resolvê-la de forma estrutural, seja qual for o governo eleito, avalia.

Esse é um Parlamento que não vai permitir espaço para nenhum governo fazer a política fiscal que o Brasil necessita. Nem Lula, nem Bolsonaro. Eu não acho que Bolsonaro vai conseguir. Vai cortar programas sociais, vai cortar gastos que são facilmente vendidos para o mercado como ajuste. Os problemas fiscais do Brasil são muito mais profundos. Tem o pagamento muito elevado de juros. Como a gente faz com a imensa quantidade de gastos tributários? Não vejo esse Congresso interessado nesse tipo de discussão.

A economista diz ainda que a questão fiscal precisa ser vista em conjunto com a política monetária. Ela aponta a necessidade de tratar as causas estruturais dos juros altos no Brasil e diz que o problema não se resolverá apenas com cortes em programas sociais.

Estamos pagando uma conta de juros equivalente a 8,7% do PIB, que é uma coisa monumental. Você não consegue resolver isso só pela via dos cortes em programas sociais. A gente precisaria de uma reforma muito mais profunda, monetária, fiscal e de dívida pública, que nem o governo Lula vai conseguir fazer nem o governo Bolsonaro, porque eles sequer estão pensando nesses termos.

Fratura social, cultural e econômica

Expressiva votação do PL (Partido Liberal) no Senado representa mudança histórica no equilíbrio de forças em Brasília. “A nossa história pós-redemocratização sempre teve um fiel da balança, seja o PMDB ou o centrão fisiológico. Hoje, essa força diminuiu e foi capturada por um partido de extrema-direita”, afirmou. Para ela, o país não está apenas polarizado, mas fraturado cultural e socioeconomicamente.

Resultado das urnas reflete mudança profunda no mercado de trabalho. Segundo Bolle, a extrema-direita passou a representar um grupo que é a favor do empreendedorismo e do enriquecimento pessoal, numa perspectiva marcada pelo individualismo.

Existe hoje uma precariedade no mercado de trabalho brasileiro, decorrente da ascensão de pessoas que se veem como empresárias, mas que na realidade são motoristas de Uber ou pessoas que trabalham em aplicativos e, portanto, não têm segurança econômica alguma. Essas pessoas estão reivindicando um tipo de protagonismo na economia, com uma segurança econômica que não lhes foi oferecida pelo governo atual.

Há um claro descolamento entre os indicadores macroeconômicos e a percepção da população, disse. “As pessoas não votam no PIB, votam no custo de vida.” Sendo assim, embora a inflação possa registrar queda, o nível de preços nas gôndolas e o endividamento continuam sufocando as famílias.

Inflação é variação de preços, custo de vida é nível de preços. A inflação pode estar em queda, mas o nível de preços pode estar muito alto ainda. Então as pessoas vão estar sentindo aquele peso do custo de vida em cima delas, e o endividamento tem aqui um papel muito relevante.

Manutenção das instituições

Apesar dos problemas econômicos complexos, Bolle diz que o ponto central desta eleição é a manutenção das instituições. A economista reforça que as instituições vêm antes da economia, e defende a Constituição de 1988: “Um país sem instituições não consegue fazer política econômica”, diz.

Minha preocupação de fundo é: o que seria um Brasil governado por Flávio Bolsonaro, onde o seu partido tem uma representatividade imensa no Congresso e que vai ser capaz de indicar pelo menos quatro ministros para o STF? É um Brasil que vai zelar pelos direitos constitucionais estabelecidos em 1988 ou é um Brasil que vai rasgar a Constituição? Não tenho preocupação se gosto da esquerda ou da direita, essa é uma discussão imatura nesse momento. Eu acho que nós temos que continuar naqueles marcos institucionais da Constituição de 1988.

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