Confisco de panela no panelaço é ensaio para celular de jornalista em 2027

A justificativa? Desacato, porque ele teria demorado para abrir o portão aos policiais. O delegado de plantão registrou o caso como perturbação do sossego… às 21h30.

Primeiro, não é detalhe que isso tenha acontecido em Alagoas. O vice de Flávio, Alfredo Gaspar, foi secretário de Segurança Pública do estado, e Flávio fez questão de exaltar justamente essa trajetória ao anunciá-lo. Gaspar não mandou prender porteiro, o ponto é outro: há um naco da polícia que enxerga na possível volta do bolsonarismo uma licença para transformar vontade própria em lei. É o aviso sobre o impacto da percepção no “guarda da esquina”, no alerta que Pedro Aleixo fez ao general Costa e Silva antes da edição do AI-5.

Não precisa de ordem. Precisa só de clima. E o clima de quem passou anos ouvindo promessas de excludente de ilicitude e de “carta branca” para a farda é de que a hora está chegando. Quem esqueceu das blitze da PRF concentradas no Nordeste no dia do segundo turno de 2022 está com a memória muito curta.

Segundo, repare em quem foi preso. Foi o porteiro. “Por que só o trabalhador?”, perguntou o advogado presente. Porque é mais fácil, afinal o porteiro é o elo mais frágil. Pegaram o mais lascado para pagar o pato.

E isso deveria acender os alertas num país em que a maioria é de lascados. Gente que vive do salário do mês, mora longe, pega dois ônibus, não tem advogado no WhatsApp. Quando a régua da autoridade é o tamanho do bolso de quem está na frente dela, a maior parte da população brasileira já está do lado errado da régua. Hoje foi um porteiro. Amanhã é a diarista que postou meme, o entregador que xingou candidato no grupo, o professor que falou de ditadura em sala de aula.

Vale registrar, aliás, o gesto fundamental dos moradores que acompanharam o porteiro até a delegacia para prestar solidariedade. Foi isso, e os vídeos, que provavelmente impediram que a noite terminasse pior. O que diz muito sobre o quanto ela poderia ter terminado pior.

Terceiro, a panela. Se, em outubro de 2026, a poucos dias do segundo turno e com o bolsonarismo fora do Palácio do Planalto, um policial se sente à vontade para levar uma panela como se fosse arma de crime, imagine o que pode ser apreendido caso eles ganhem. O celular de quem filma abordagem, a câmera do repórter que cobre manifestação, o HD de associação que denuncia violência policial, o celular ou o notebook do jornalista que publicou “o que não devia”. E, claro, a liberdade de quem incomoda.

Por isso, um recado aos colegas de profissão que vêm tratando a ascensão do extremismo como mais uma alternância de poder, que fazem “os dois lados” entre quem respeita as regras do jogo e quem quer rasgá-las, e que acham que nada disso vai respingar neles porque, afinal, (ainda) não é com eles. A Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj) indicou que Jair Bolsonaro foi o principal agressor da imprensa entre 2019 e 2022, mas estimulou outros tantos ataques. Não havia, naquela época, a sensação de vitória acumulada e de revanche que há agora.

O porteiro e a panela não têm advogado, não têm sindicato, não têm jornal para ajudar a argumentar. Nós temos. Por enquanto.

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