Ser amigo de ACM Neto e Vorcaro não torna Flavio Bolsonaro soteropolitano

A matéria lembra que nas vésperas do primeiro turno, o TRE da Bahia já havia proibido a liberação de servidores antes do fim do expediente para participação em atos políticos e determinado que a prefeitura de Salvador publicasse nota informando que os funcionários não eram obrigados a comparecer.

Integrantes da bancada de oposição da Câmara Municipal de Salvador, que votaram contra a concessão do título, enviaram documento à Mesa Diretora da casa legislativa, que propôs a comenda, citando mensagens de protesto à homenagem registradas nos canais da Ouvidoria da Câmara, relacionadas às suspeitas envolvendo Flávio Bolsonaro.

Um abaixo-assinado na plataforma digital Change.org reuniu, até a noite dessa sexta-feira, 16, mais de 215 mil assinaturas pedindo a revogação do título, por considerar que Flávio Bolsonaro não representa o povo de Salvador.

“Flávio Bolsonaro é uma figura que gera grande controvérsia, com uma série de alegações relacionadas a corrupção, desvio de recursos públicos e apoio a políticas que muitos de nós, soteropolitanos, rejeitamos”, diz trecho que justifica o abaixo-assinado.

Felizmente, a juíza Carla Graziela Costantino de Araújo, da 5ª Vara da Fazenda Pública de Salvador, concedeu liminar e suspendeu a solenidade de entrega. O título, aprovado pelo plenário do legislativo municipal, não foi anulado e a cerimônia poderá ocorrer após as eleições.

A juíza atendeu a um pedido formulado em ação popular que contestou a resolução da Câmara. Na decisão, a magistrada ponderou que, embora o poder legislativo possua autonomia para conceder comendas e honrarias, a realização da solenidade em local externo e em pleno período eleitoral fere os princípios da moralidade, impessoalidade e razoabilidade, “desnaturando a solenidade pública oficial em evento com feição promocional ou partidária”, destaca a sentença.

Além do oportunismo do momento e dos gastos públicos para realizar o ato fora da sede da Câmara Municipal, a ideia de tornar Flavio Bolsonaro um cidadão soteropolitano não encontra justificativa cabível na relação do político com a cidade.

O único vínculo é uma aliança política, nem sempre transparente, com ACM Neto.

Um levantamento feito pelo BNews no Portal da Transparência do Senado, das passagens aéreas pagas com dinheiro público aos parlamentares, aponta que, desde que se tornou senador, Flávio Bolsonaro só esteve uma única vez em Salvador, em dezembro de 2019, quando o pai, Jair Bolsonaro (PL), era presidente.

Na campanha deste ano, Flávio esteve na Bahia em duas oportunidades (em Luís Eduardo Magalhães, em junho e Vitória da Conquista, em setembro). Mas preferiu não chegar perto da cidade que agora se tornará cidadão e onde a relevância política de ACM Neto dar seus últimos suspiros, por meio da gestão do seu sucessor na prefeitura.

Para não ser prejudicado pela preferência lulista da cidade, a campanha de Neto tentou disfarçar a relação com o candidato do PL, escancarada apenas neste segundo turno. Em comum entre ACM Neto e Flávio Bolsonaro, além do fato de agora ambos serem cidadãos soteropolitanos, está a proximidade com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso pelo caso Master. Um elo que merece explicações.

Flávio é investigado pela Polícia Federal, em inquérito no STF, por suspeitas relacionadas ao financiamento do filme Dark Horse. Áudios revelaram o senador cobrando milhões ao ex-banqueiro, e a destinação integral dos recursos permanece sem esclarecimento público. A PF também encontrou Flávio cadastrado como “usuário master” em uma conta de empresa administrada pelo advogado Willer Tomaz, sócio de Vorcaro em um avião utilizado pelo senador.

Já ACM Neto recebeu R$ 5,4 milhões do Banco Master por meio de sua consultoria. Mensagens no celular de Vorcaro apontam articulações de Neto e do presidente do União Brasil, Antônio Rueda, para aproximar o banco de fundos estaduais de previdência. Em proposta de delação rejeitada pelas autoridades, Vorcaro alegou que ambos atuaram na captação de investimentos em troca de comissões de 10%. Flávio e Tomaz confirmam amizade, mas negam irregularidades. ACM Neto confirma o recebimento de valores pelos serviços prestados, mas também nega ilegalidade.

As investigações continuam e os vínculos entre Flávio e Vorcaro e de Vorcaro com Neto precisam ser esclarecidos. Os vereadores de Salvador deveriam aguardar pois esses vínculos não transformam ninguém em cidadão de Salvador. Ao contrário, podem aumentar ainda mais a rejeição por parte dos soteropolitanos.

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