Temporal causa prejuízo a produtores rurais e cooperativas no Sul do país

Temporais, vendavais e chuvas intensas provocaram estragos em propriedades rurais dos três Estados da região Sul nos últimos dias. Produtores rurais e cooperativas de Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul contabilizam os prejuízos com o clima, com destruição de estruturas, danos a máquinas e comprometimento de lavouras. O excesso de chuva também atrasa o plantio da soja e ameaça a produção agrícola em municípios da região.

O município de Pinhalzinho está entre os mais afetados pela chuva intensa no oeste de Santa Catarina. Na quarta-feira (4/11), os ventos intensos que acompanharam o temporal destruíram parte da estrutura da Cooperativa Regional Itaipu (Cooperitaipu). Segundo a cooperativa, a passarela que conecta o silo com a fábrica para fazer o beneficiamento de rações cedeu com a força do vento.

A estrutura feita de aço caiu em cima de uma carreta e de um veículo que não estavam tripulados no momento, e ninguém se feriu. A estimativa de prejuízos financeiros da cooperativa é de R$ 15 milhões a R$ 18 milhões, e o seguro foi acionado.

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Ainda de acordo com a Cooperitaipu, cooperativas parceiras estão emprestando equipamentos para que as principais linhas de produção de ração bovina e suína voltem aos trabalhos na segunda-feira (9/11). “O reparo de 100% da estrutura deve demorar de 60 a 70 dias, mas com ajuda das cooperativas, segunda-feira o beneficiamento e a entrega de ração aos produtores voltam ao normal”, informou a assessoria.

De acordo com o meteorologista Marcelo Martins, da Empresa de Pesquisa Agropecuária e Extensão Rural de Santa Catarina (Epagri/Ciram), os maiores volumes de chuva dos últimos dias se concentraram, além do oeste de Santa Catarina onde está localizada a Cooperitaipu, também no planalto norte e litoral norte. Martins afirma que em muitas regiões dessas áreas, os acumulados da semana foram praticamente o dobro do previsto para o mês inteiro.

Além disso, o Estado já vem de um mês de outubro muito chuvoso. “A primavera já é uma estação chuvosa na região. No decorrer de outubro, foram registrados volumes em torno de 600 milímetros, sendo que a média histórica é inferior a 200 milímetros”. Segundo o meteorologista, essa condição estava dentro do previsto diante da influência do fenômeno El Niño de forte intensidade.

Nas áreas rurais, como consequência das chuvas consecutivas, a Epagri registrou o solo com alta umidade, o que tem prejudicado as fases de floração, colheita e armazenamento das lavouras. Além desta condição, vendavais e quedas de granizo também causaram prejuízos generalizados à agricultura de Santa Catarina.

“Houve relatos de impactos em diversas culturas, incluindo soja, fumo, cebola, frutos de caroço como uva, pêssego e maçã, milho, safrinha de feijão e até mesmo a produção de flores”, relatou o especialista da Epagri.

Segundo o boletim mais atualizado da Defesa Civil do Estado de Santa Catarina, as chuvas registradas desde domingo, 1º de novembro, acumulam registros de ocorrências em 122 municípios. Até o momento, 54 cidades decretaram situação de emergência e 21 formalizaram pedidos de itens de assistência humanitária. O impacto nas infraestruturas locais soma 6.330 residências afetadas, além de um saldo de 533 pessoas desalojadas, 100 desabrigadas, além de duas mortes confirmadas.

“Não foi um vento comum”

O produtor rural Cícero Mizote, de Maringá, no Noroeste do Paraná, ainda calcula os prejuízos deixados pela passagem de um tornado na propriedade. “Não foi somente um vento comum”, comenta. O Sistema de Tecnologia e Monitoramento Ambiental do Paraná (Simepar) confirmou que o município foi atingido por um tornado classificado como F2 na Escala Fujita, quando os ventos podem alcançar entre 180 km/h e 253 km/h.

O evento climático ocorreu entre a noite do domingo, 1° de novembro, e a madrugada de segunda-feira. “A situação está complicada, o estrago foi grande na propriedade”, avalia Mizote. O tornado destruiu o barracão das colheitadeiras, causando danos nas máquinas.

O produtor conta que toda a estrutura foi arrancada, sobrando apenas os pilares: “O telhado foi jogado a 100 metros de distância, parecia um bolo de papel retorcido”. Os ventos também atingiram outros dois barracões da fazenda, causando estragos parciais, destelhou as casas dos funcionários, o escritório da sede, além de derrubar postes de energia elétrica.

De acordo com ele, apenas o maquinário possui cobertura de seguro, o restante da recuperação dependerá de recursos próprios.

Tornado causou danos a máquinas em Maring — Foto: Arquivo pessoal
Tornado causou danos a máquinas em Maring — Foto: Arquivo pessoal

O produtor conta ainda que uma parte da soja que já estava plantada também foi atingida pelo tornado, que levou ventos acompanhados de granizo à lavoura. Em torno de 120 hectares foram danificados, somando as áreas dele e do vizinho. “A planta não tinha emergido ainda, mas terei que fazer o replantio”, projeta.

Segundo o vice-presidente do Sindicato Rural de Maringá, Cleber Veroneze, os estragos deixados pelo tornado na área rural foram pontuais, com poucas perdas nas lavouras. Na zona urbana, porém, os ventos derrubaram árvores e causaram destelhamentos, além de danos à rede elétrica e bloqueios de ruas. Mais de 900 casas foram danificadas e 3,6 mil pessoas foram afetadas, segundo a Defesa Civil do Estado.

Lavoura comprometida

Em Pitanga, na região central do Paraná, foi o volume de chuvas que deixou prejuízo na área rural. Conforme Anselmo Coutinho Machado, presidente do Sindicato Rural do município, choveu mais de 150 milímetros somente na madrugada de quinta-feira (5/11).

“O solo não é capaz de absorver essa quantidade de água, o que deve gerar muita erosão nas lavouras e prejudicar os grãos que estão no campo”, acredita.

Em torno de 60 mil a 70 mil hectares são cultivados no município com soja e milho. Enquanto o milho foi plantado em setembro, a soja está com a semeadura atrasada devido ao excesso de chuvas. Machado comenta que o plantio da oleaginosa atingiu em torno de 50% a 60% da área prevista, quando já deveria estar concluído.

“Tivemos uma janela de poucos dias de sol antes dessa chuva, e foi semeada uma enorme quantidade de semente. Grande parte desse plantio vai ser comprometido”, estima.

E observa que ainda não há como calcular as perdas nas lavouras neste momento: “Teremos de aguardar mais de uma semana para avaliar”. O escoamento do leite produzido na região também preocupa, tendo em vista as condições de tráfego comprometidas dos mais de 6 mil quilômetros de estradas de terra na área rural do município.

Fundo estadual de catástrofe

O Sistema Faep enviou, nesta sexta-feira, um ofício ao governador Carlos Massa Ratinho Junior propondo a criação de um fundo estadual de catástrofe voltado ao setor agropecuário paranaense. O objetivo é garantir que os produtores possam reconstruir estruturas e benfeitorias e readquirir insumos e maquinários danificados em temporais, vendavais, granizo e tornados.

Segundo dados da Defesa Civil do Estado, somente nos seis primeiros dias de novembro, 94 ocorrências de desastres climáticos foram registradas em 87 municípios, gerando R$ 38,4 milhões em prejuízos e afetando mais de 30 mil pessoas.

Nesse cenário, produtores já acumulam perdas médias de 25% de produtividade nos cultivos de inverno, segundo o Sistema Faep, além da necessidade do replantio de lavouras levadas por enxurradas e granizo e perdas de investimentos feitos em infraestrutura e maquinários.

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