A necessidade de um ajuste fiscal após o perdulário terceiro mandato presidencial de Lula fez ressurgir a esperança entre seus apoiadores de que é possível equilibrar as contas públicas sem fazer os sacrifícios políticos necessários, como deixar de reajustar o salário mínimo acima da inflação.
O economista André Lara Resende se apresentou para o jogo e sua teoria sobre tabelamento de juros se prestou durante pouco mais de uma semana a animar os lulistas que não querem lidar com as consequências da reeleição do presidente, até o próprio governo se afastar de Lara Resende.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, admitiu que não há “fórmula mágica” para ajustar a economia e o próprio Lula falou em responsabilidade fiscal após o Banco Central interromper a queda na taxa básica de juros, mas o presidente se reuniu com um grupo de economistas heterodoxos na semana passada, entre eles os criativos Guido Mantega e Aloizio Mercadante.
Cloroquinomics
O encontrou deixou sugerido que a busca pela tal “fórmula mágica” não foi abandonada, e, quanto mais tempo Lula demorar para indicar como (e se) pretende recolocar a economia brasileira nos trilhos após elevar em 10 pontos percentuais a dívida pública, mais caro vai custar o Cloroquinomics que assombra o futuro do Brasil desde a reeleição em 25 de outubro.
O termo, que lembra o best-seller Freakonomics, do início do século, foi criado pelo ex-chefe do Departamento de Mercado Aberto do Banco Central Sergio Goldenstein, que é sócio-fundador da consultoria Eytse Estratégia.
É uma alusão à Cloroquina, tida como remédio milagroso durante a pandemia do coronavírus, mas que nunca teve sua efetividade comprovada, apesar de a crença seguir viva até hoje.
Na época da covid, a esquerda mundial criticou os “negacionistas” que se rebelaram contra consensos científicos que guiaram a reação ao vírus. Nem tudo que os governos fizeram se provou certo, mas o termo se consolidou e se popularizou, especialmente em relação aos bolsonaristas.
Pois chegou a hora de constatar que a esquerda brasileira também não tem exatamente apreço pelo método científico. A diferença é que isso se enxerga de forma mais clara na economia.
Atalhos
Presidente da Coteminas, Josué Gomes da Silva aproveitou o espaço aberto no debate para defender a redução dos juros, em artigo intitulado “Interdição ao debate sobre os juros tem de acabar”, publicado neste domingo, 8, pela Folha de S.Paulo.
“Estabeleceu-se uma espécie de interdição ao debate sobre os juros. Todos reconhecem que precisam cair, mas qualquer discussão sobre como alcançar esse objetivo que não se limite a cortes de despesas públicas é recebida com desconfiança ou desqualificada antecipadamente”, argumenta o ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Não é verdade. O consenso é de que o Brasil tem uma série de problemas estruturais que empurram os juros para cima, entre eles os péssimos (e invariavelmente oportunistas) gastos públicos e a apropriação dos recursos estatais por grupos de interesse.
A alegação de que só cortes de despesas públicas são aceitos no debate é o argumento dos lulistas para negar inclusive a necessidade de se fazer um ajuste, sob o abrigo do discurso social.
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Mesma história
Com exceção do termo Cloroquinomics, cujo mérito é colocar as coisas em perspectiva com a pandemia, não há nada de novo nessa história, que já foi contada na reeleição de Dilma Rousseff.
Dilma também fez o diabo para se reeleger, com controle de preços e maquiagem de dados, e teve de lidar com as consequências no segundo mandato, que culminou em seu impeachment.
Quando Joaquim Levy, ministro da Fazenda, agiu para fazer o ajuste, já era tarde, e até hoje os petistas o culpam pela queda de Dilma, como se o ajuste fosse uma opção.
Essas mesmas pessoas se ressentem dos indicadores econômicos que preveem que uma recessão se aproxima e bradam nas redes sociais contra o mercado financeiro, na tentativa de repassar a culpa pelo que está por vir, como se ela não fosse de Lula.
“Negacionismo econômico só alimenta a chance de estagflação. E ainda tem uma turma que chama esses alertas sobre o desequilíbrio fiscal de ‘terrorismo econômico’ ou de ‘chantagem da Faria Lima’. Na terra da jabuticaba, temos agora uma nova vertente da Economia, a Cloroquinomics…”, disse Goldesntein ao comentar postagem em que o ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Guilherme Boulos, disse que “o Tesouraço foi derrotado nas urnas”.
Fica o registro histórico.
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